O lugar dos livros impossíveis!

Reli esta “Carta a um Amigo-Novo” que me lembrou uma carta a um velho amigo que ficará para sempre por escrever. Infelizmente foi tudo tão diferente que devo ao tempo e às circunstâncias o ter-me lembrado dela, da carta à laia de prefácio. Era um domingo, como hoje, e assistia ao Memorial à memória de alguém que o merecia como poucos.

Chegado a casa, peguei no livro, neste livro de que vos falo. Reli-o num sorvo, bem como ao prefácio. Voltei a ler tudo aquilo que se resume a pouco menos de 70 páginas, mas que nos fala de muito mais que muitas vidas. A de alguém que esteve para ir e por cá ficou, a do “outro que esteve por cá enquanto esse alguém por cá não esteve” e a de um terceiro, amigo de ambos, que nos escreve de uma forma como só ele o poderia ter feito. Escreveram ambos, aliás. Com a sabedoria dos eleitos, que isto de estar do lado de lá tem que se lhe diga.

Vamos por partes. José Cardoso Pires tinha então 69 anos quando sofreu o AVC, curiosamente tantos quantas as páginas deste livro. Era então um escritor reconhecido e renomado, já havia escrito quase toda a sua obra, já pouco mais teria para nos contar. Passada “… a brancura da paisagem…” resolveu partilhar o que (não) viveu, tendo em João Lobo Antunes alguém que cedo o percebeu, porque tal como em Mondrian, “…são o traço e a cor e as relações entre eles que põem em jogo o registo sensual e intelectual da totalidade da vida interior…”.

Lobo Antunes, vinte anos mais novo, que havia regressado a Portugal há menos de dez anos após um período de permanência nos EUA, testemunhou o que viu e acompanhou, naquela “… convicção arreigada da alma lusitana que a interferência de médico graúdo apura o tratamento, apressa a cura, empresta enfim ao doente estatuto de maior fidalguia…”. Sendo um homem da ciência era também alguém com um espírito renascentista.

Prefaciou o livro. Num pedaço de prosa eivado de conhecimento e de sensibilidade estética, gentil na forma e na essência, tratando de um tema que incomoda, faz de “Carta a um Amigo-Novo” um texto doce num momento amargo.

Ao fazê-lo, assumiu então uma abordagem inteligente sobre um assunto que sabia ser sensível, evitando uma dissertação científica. Não seria esse o seu propósito. Resistiu à tentação de dissertar sobre a relação entre a doença e a criação artística, embalando-nos num texto entre Godot e Mozart, “… e a música de cena era canção de esperança (…) a transição da escuridão para a luz, do mundo subterrâneo para a superfície…”.

Conseguir conciliar assim num pequeno-grande livro, sem artifícios, dois dos nomes maiores nos seus ‘métiers’ é algo fora do comum. Cumpriram com excelência o seu caminho. Vivem connosco para a posteridade.

Adelino Pires
30.Agosto.26
#Quase escrita…

Breve ensaio sobre prefácios (II)
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