Vamos por partes. José Cardoso Pires tinha então 69 anos quando sofreu o AVC, curiosamente tantos quantas as páginas deste livro. Era então um escritor reconhecido e renomado, já havia escrito quase toda a sua obra, já pouco mais teria para nos contar. Passada “… a brancura da paisagem…” resolveu partilhar o que (não) viveu, tendo em João Lobo Antunes alguém que cedo o percebeu, porque tal como em Mondrian, “…são o traço e a cor e as relações entre eles que põem em jogo o registo sensual e intelectual da totalidade da vida interior…”.
Lobo Antunes, vinte anos mais novo, que havia regressado a Portugal há menos de dez anos após um período de permanência nos EUA, testemunhou o que viu e acompanhou, naquela “… convicção arreigada da alma lusitana que a interferência de médico graúdo apura o tratamento, apressa a cura, empresta enfim ao doente estatuto de maior fidalguia…”. Sendo um homem da ciência era também alguém com um espírito renascentista.
Ao fazê-lo, assumiu então uma abordagem inteligente sobre um assunto que sabia ser sensível, evitando uma dissertação científica. Não seria esse o seu propósito. Resistiu à tentação de dissertar sobre a relação entre a doença e a criação artística, embalando-nos num texto entre Godot e Mozart, “… e a música de cena era canção de esperança (…) a transição da escuridão para a luz, do mundo subterrâneo para a superfície…”.
Conseguir conciliar assim num pequeno-grande livro, sem artifícios, dois dos nomes maiores nos seus ‘métiers’ é algo fora do comum. Cumpriram com excelência o seu caminho. Vivem connosco para a posteridade.
