O lugar dos livros impossíveis!

A imagem do costume, um ritual para mim.
Por aquele monóculo já se avistava o talento.
Daquela figura franzina, seca de carnes e cheia de espírito, atormentada de medos, inspirada de mundos e afantasmada pela vida, haviam brotado algumas das mais notáveis páginas da nossa escrita.
De onde lhe viria tal arte? De onde a inspiração? Da orfandade forçada, presente nas personagens criadas, de mãe ofuscada e aclandestinado pelo pai? Do colégio da Lapa, no Porto, onde conhecera Ramalho, amigo do peito, com farpas escritas em vida e algumas espetadas pós morte? Da inspiradora Coimbra, onde cursara Direito (ainda que por linhas tortas), afogado na turbulência intelectual de Antero que lhe apresentara Proudhon, Flaubert, Zola ou Balzac? Ou ainda da grande Lisboa, palco que pisou amiúde, salpicando-a na sua ficção, mergulhado nas Conferências do Casino ou tertuliando com os Vencidos da Vida?
Em Eça, o seu espírito acutilante nunca o deixara ficar indiferente. Fosse em Évora, em Leiria ou nos postos consulares que abraçou, tudo observava com lente telescópica, ironia singular, inteligência refinada. E é curiosamente Leiria que está na génese do seu primeiro romance realista, “O Crime do Padre Amaro” – “…uma intriga de clérigos e de beatas tramada à porta de uma velha Sé de província portuguesa…”. E que intriga! Na escrita e nas peripécias da sua publicação. Dele, escreveria Torga no seu primeiro Diário: “… arrancar desta terra um tal romance parece uma obra de Deus…”.
Eça de Queiroz foi ainda e também um traga-mundos. Num país com 80% de analfabetos em apenas quatro milhões de habitantes, pôde viajar como poucos. Palmilhou, teve mundo. Com 24 anos apenas, assistiu à abertura do Canal do Suez e viajou pelo Egipto e Palestina. Marcou-o para sempre essa viagem. De romântico e idealista, tudo aquilo o transportaria para um outro realismo na sua escrita.
Assume, então, a diplomacia como carreira. Primeiro em Cuba, que reparte com Nova Iorque, como fait-divers. Percebe que esta, apesar de nova, é já uma cidade podre. E que, para ele, “… a civilização, não é ter uma máquina para tudo e um milhão para cada máquina…”, mas bem mais do que isso. É feita de sentimento. Na América, mais do que nunca, sente-se um verdadeiro europeu. Falta-lhe “política, crítica, corrupção literária, humorismo, estilo, colorido, palheta…”. Muda-se então para Inglaterra. Na velha Newcastle, onde o carvão tudo acinzenta e a luz de Lisboa é algo do fim do mundo, arranca algumas das mais notáveis páginas da sua escrita. “O Primo Basílio”, para alguns, a sua obra-prima, terá sido escrito em pleno spleen. Machado de Assis não lhe poupa na polémica, o que para Eça, será um elogio. Depois Bristol e, por fim, Paris. Era um sonho. Seria também o ocaso.
O fascínio de Eça por França era antigo. Desde Coimbra. Paris era o símbolo da modernidade e o centro cultural da europa. Foi-se o nevoeiro, chegavam as luzes. A Belle Époque, os encontros com Victor Hugo, António Nobre e alguns mais. E há ainda algo com o “nosso” Carlos Reis, que não cabe aqui neste texto.
Entretanto, a doença e a morte aos 55 anos acabariam por chegar. A Eça, muito lhe devemos. Era um homem dos diabos. Nasceu quase clandestino, viveu de flor na lapela. Foi escrevendo enquanto pôde, viajou enquanto quis. Nasceu num lugar meio escondido. Vive em casa de todos nós.

adelino pires
novembro.25.11
(Passam hoje 180 anos sobre o nascimento de Eça de Queiroz)
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