o alfarrabista do burgo

São de Fausto, o Bordalo Dias, algumas das mais belas canções da música portuguesa. “O Barco Vai de Saída”, “Se Tu Fores Ver o Mar”, ou “Navegar, Navegar”, têm em comum a aventura, o desafio e o horizonte de vistas largas e perigos vários. Ali, tudo parece fazer sentido. Letras buriladas ao pormenor, musicalidade quase perfeita numa viagem por mares quantas vezes já navegados, “adeus ó cais de Alfama… e vai ao fundo sim senhor, que vida boa era a de Lisboa”.

E é ao som de “Rosalinda” que escrevo estas linhas. Tento afinar o tom da escrita pela voz de Fausto, como aconchego de fundo. Sem rede, nem diapasão que me valha, confesso que não é fácil. A canção é lindíssima, o tema sempre actual. Concentro-me mais na música dele, que na escrita minha. Não há problema, os leitores perdoam, é por uma boa causa.

Foi por ele (e poucos mais) que a música portuguesa valeu a pena naqueles tempos em que a ouvia. Mudo de registo e passo a ouvir “… e assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal”. Cheira-me a revolução, que diabo! Afinal, agora já não é tanto assim. Mas o Fausto insiste: “…segura bem o teu par, que o baile vai terminar”. Mudo de novo. E não me canso de o ouvir. Pouso a caneta que a crónica pode esperar. Aliás, duvido que alguém a leia.

Não me importo. Fico-me pela Rosalinda, com que a minha irmã Guida hoje, subtilmente me deu os bons dias. Um sinal que só mais tarde percebi.

adelino pires

1.julho.24
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