Ao ler este seu terceiro livro confesso que senti, assim como que um misto de sensações. Talvez porque a expectativa fosse elevada. Por mais paradoxal que pareça, agradou-me desde logo a belíssima capa (um auto-retrato de Sam) e o facto de o livro ter menos de duzentas páginas.
Nos tempos que correm, só um grande, grande livro, me prende mais do que isso. Depois, ao longo da leitura, fui-me apercebendo da aventura onde Evelina tinha mergulhado. Ao pegar na mística e desconcertante figura de Sam Abercromby, a autora encontrou o fio de uma longa meada, uma história incrível e cinematográfica, ao nível do que os melhores argumentistas poderiam esperar.
Penso mesmo que a própria Evelina foi surpreendida por ambos. Talvez atropelada por ambos. Pelas sete vidas da personagem e pelo fascínio da sua história. Recompôs-se. É uma autora que já demonstrou saber escrever bem, tendo ali, à sua frente, uma personagem incrível de dimensão ofuscante, uma história deste mundo e do outro, merecendo uma narrativa e uma qualidade literária ao nível da personagem e da sua história de vida.
Evelina Gaspar já demonstrou ter inegáveis qualidades literárias e é alguém com sensibilidade para beber e passar ao papel tudo aquilo que pensa fazer sentido. Desta vez, tenta que o ritmo e o embalo não lhe fujam. Acredito não ter sido fácil, não porque o não conseguisse, mas porque a dimensão da personagem, o enredo da sua história e a penumbra que separa a ficção da realidade, por vezes se sobrepõe à cadência da escrita.
adelino pires
