Aquilino tinha já mais de 70 anos e dezenas de obras publicadas quando decidiu escrever “Quando os Lobos Uivam”. Respeitado por uns e temido por outros, era então um escritor que nada tinha a provar. Mestre da prosa, escritor intraduzível, não só mas também por isso foi um Nobel sempre adiado. Não vos falarei muito sobre ele, não me sinto talhado para tal, falta-me o fôlego, engenho e arte e nem sequer tenho comigo o glossário, indispensável e remédio santo para quem nos enovela a língua como ninguém. Que burilar a letra, afiar a vírgula, escadear a frase, não será para aprendizes, antes para apurados artífices, papa-léguas de muitas milhas de resmas comidas a papel e tinta.
Se hoje aqui o trago, a ele Aquilino, “mais cronista que carpinteiro de romance”, é pelo livro em causa, o seu contexto histórico, o processo de censura e os seus dois prefácios que vale a pena ler.
“Quando os Lobos Uivam” retrata a luta dos montanheses da serra dos Milhafres, algures, na Beira Alta contra os propósitos de expropriação e florestação forçada de alguns terrenos serranos e o impacto que tal representava no pastoreio e na agricultura de subsistência. Aquilino, ao escrever sobre o assunto e da forma como o fez, gerou uma enorme preocupação no regime vigente e a reacção não se fez esperar: o livro foi apreendido, a sua circulação proibida e o escritor alvo de um processo por “injúrias à magistratura”.
A presente edição foi a primeira publicada no Brasil e resulta dessa apreensão e consequente proibição de circulação da edição portuguesa nos finais dos anos cinquenta. No seu prefácio, Adolfo Casais Monteiro é claro na defesa de Aquilino que, se ao longo da sua obra teve na serra a sua zona de conforto, foi muito mais do que isso, tendo sido um enorme escritor de múltiplos e variados temas. Casais Monteiro sublinha que o Estado Novo, processando Aquilino, revelou-se, ele sim, excelente crítico literátio, “…mostrando que os capítulos incriminados são realmente os mais poderosos deste poderoso livro…”.
É também notável o prefácio do próprio Aquilino, que acompanha o livro dedicado ao Dr. Francisco Pulido Valente. Uma vez mais aqui se revela toda a arte de bem escrever, ou de como, em quatro páginas apenas, se pode ser um esteta da serra e da caneta, consciente e grato.
