Penso que foi o poeta Hugo Santos quem me falou pela primeira vez de António Salvado. Ele ou o José Ribeiro da Ulmeiro, nascido perto de Ourém, figura de Benfica e de toda a Lisboa, e de quem vos voltarei a falar um dia.
Categoria: Breve ensaio sobre prefácios
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Antologia da Poesia Feminina Portuguesa
Antologia da Poesia Feminina PortuguesaOrganização e Prefácio de António SalvadoTodos navegavam pelas mesmas águas de uma certa cultura literária, com origens bem diferentes. Hugo Santos, alentejano de Campo Maior e torrejano tardio, viu o seu livro “O Aprendiz de Ventos” ser publicado numa edição conjunta da Vega e da Ulmeiro, ainda no final do século passado. Já António Salvado, poeta, ensaísta e senhor de uma vasta obra bibliográfica, nasceu, viveu e morreu em Castelo Branco, longe dos grandes centros, fazendo da sua Beira Baixa o núcleo central por onde gravitava, viajando no tempo.A belíssima e invulgar edição da “Antologia da Poesia Feminina Portuguesa” de que vos falo tem uma poética capa de Ribeiro Farinha, onde tudo parece condizer como se de poesia se tratasse. É também ela um sinal de como se podiam editar livros com sensibilidade estética, assim houvesse engenho e arte para o fazer. Disso, e de muito mais, sabia o Jornal do Fundão (JF) quando, ao que se sabe, em 1972 deu ao prelo esta edição, afectivamente recebida pelos leitores.Logo no início do Prefácio, António Salvado não esconde ao que vem: “Ao longo das páginas seguintes, preenchidas pelos poemas de algumas dezenas de autoras, se poderá definir, esclarecer, aclarar, uma realidade sensível mas tantas vezes embaciada, que nos vem de um passado longínquo: a existência de uma significativa poesia feita por mulheres (…). Relegadas quantas vezes para um plano menos evidenciado ou, até, inferior, muitas das autoras na presente antologia apresentadas, estudadas e devidamente exemplificadas, oferecem, sem qualquer dúvida, alto interesse que o simples cotejo com citadíssimos poetas dos mesmos períodos claramente mostrará…”.Pelo que nos diz, nos três cancioneiros arcaicos que reúnem as composições dos poetas trovadorescos (Cancioneiro da Ajuda, da Vaticana e da Biblioteca Nacional) não existe qualquer referência a nomes de poetisas, embora se saiba que a influência da mulher no trovadorismo português se encontra evidenciada. Só mais tarde, no “Cancioneiro Geral de Garcia de Resende”, colectânea que colige vasta produção poética do século XV, surge pela primeira vez a mulher firmando o nome nos seus versos (Filipa d’Almada, ou Joana da Gama, como exemplos). Muito tempo depois, em “Gente D’Algo”, também o Conde de Sabugosa referia que “… Entre senhoras da Corte, havia muitas que rimavam com chiste, que sabiam manejar a ironia, e arremessar com graça dardos de satírica malícia…”.António Salvado faz do prefácio uma breve, mas elucidativa, síntese da presença feminina nas nossas letras desde o período inicial, do humanismo ao renascimento, passando pelo iluminismo do século XVIII, época em que o “estrangeirado” Luís António Verney reage com o seu “Verdadeiro Método de Estudar” ao que então era comum, “…reconhecendo como necessidade a cultura da mulher…”, estendendo-se até ao século XX com autoras contemporâneas.Baseada nalgumas fontes que refere, esta é a Antologia que o Autor entendeu organizar com os meios possíveis e disponíveis. Nela se atravessam séculos e nomes como os de Joana da Gama, Soror Violante do Céu ou Marquesa de Alorna que assim convivem com os de Branca de Gonta Colaço, Irene Lisboa, Florbela Espanca ou Virgínia Vitorino. Das mais recentes até então, Sophia de Mellho Breyner, Natércia Freire, Natália Correia, Ana Hatherly, Maria Teresa Horta, entre outras, não foram esquecidas. Com a consciência de que se fala apenas de algumas das vozes que já tinham voz. Fica a pergunta: quantas, tantas, nunca terão passado do anonimato? -

De Profundis, Valsa Lenta, de José Cardoso Pires
Prefácio de João Lobo Antunes
Reli esta “Carta a um Amigo-Novo” que me lembrou uma carta a um velho amigo que ficará para sempre por escrever. Infelizmente foi tudo tão diferente que devo ao tempo e às circunstâncias o ter-me lembrado dela, da carta à laia de prefácio. Era um domingo, como hoje, e assistia ao Memorial à memória de alguém que o merecia como poucos.Chegado a casa, peguei no livro, neste livro de que vos falo. Reli-o num sorvo, bem como ao prefácio. Voltei a ler tudo aquilo que se resume a pouco menos de 70 páginas, mas que nos fala de muito mais que muitas vidas. A de alguém que esteve para ir e por cá ficou, a do “outro que esteve por cá enquanto esse alguém por cá não esteve” e a de um terceiro, amigo de ambos, que nos escreve de uma forma como só ele o poderia ter feito. Escreveram ambos, aliás. Com a sabedoria dos eleitos, que isto de estar do lado de lá tem que se lhe diga.Vamos por partes. José Cardoso Pires tinha então 69 anos quando sofreu o AVC, curiosamente tantos quantas as páginas deste livro. Era então um escritor reconhecido e renomado, já havia escrito quase toda a sua obra, já pouco mais teria para nos contar. Passada “… a brancura da paisagem…” resolveu partilhar o que (não) viveu, tendo em João Lobo Antunes alguém que cedo o percebeu, porque tal como em Mondrian, “…são o traço e a cor e as relações entre eles que põem em jogo o registo sensual e intelectual da totalidade da vida interior…”.
Lobo Antunes, vinte anos mais novo, que havia regressado a Portugal há menos de dez anos após um período de permanência nos EUA, testemunhou o que viu e acompanhou, naquela “… convicção arreigada da alma lusitana que a interferência de médico graúdo apura o tratamento, apressa a cura, empresta enfim ao doente estatuto de maior fidalguia…”. Sendo um homem da ciência era também alguém com um espírito renascentista.
Prefaciou o livro. Num pedaço de prosa eivado de conhecimento e de sensibilidade estética, gentil na forma e na essência, tratando de um tema que incomoda, faz de “Carta a um Amigo-Novo” um texto doce num momento amargo.Ao fazê-lo, assumiu então uma abordagem inteligente sobre um assunto que sabia ser sensível, evitando uma dissertação científica. Não seria esse o seu propósito. Resistiu à tentação de dissertar sobre a relação entre a doença e a criação artística, embalando-nos num texto entre Godot e Mozart, “… e a música de cena era canção de esperança (…) a transição da escuridão para a luz, do mundo subterrâneo para a superfície…”.
Conseguir conciliar assim num pequeno-grande livro, sem artifícios, dois dos nomes maiores nos seus ‘métiers’ é algo fora do comum. Cumpriram com excelência o seu caminho. Vivem connosco para a posteridade.
Adelino Pires30.Agosto.26#Quase escrita…Breve ensaio sobre prefácios (II)
