
Romanceiro do Povo Miúdo
Memórias e Confissões
de José Ricardo
Explicação, notas e edição de Lino Lima
(Por vezes o prefácio pode esconder o autor. Ou um jogo de espelhos na clandestinidade…)
Felizmente que tenho amigos de todos os quadrantes. Conheço alguns para quem ideias preconcebidas não permitem, digamos assim, ler algo que, no seu seu entender, lhes possa causar algum desconforto. Digo-lhes que não sabem o que perdem. O livro que vos trago é um daqueles que só pela capa e pela editora afastaria alguns que nunca lhe pegariam. Compreendo, mas não concordo. Desde logo porque se, como é o caso, pode aparentemente ser visto como um testemunho algo sectário, não deixa de ser um interessantíssimo documento histórico e sociológico que nos permite perceber e enquadrar uma época.
Lê-se na sua “Explicação” que “As memórias e confissões do Romanceiro do Povo Miúdo” foram guardadas por José Ricardo num arquivo de pastas de “assuntos terminados” e recuperadas apenas após a sua morte, por indicação prévia dada à sua sobrinha mais velha Maria Manuela (Manucha), para que os desse a conhecer a Lino Lima e deles fizessem o que entendessem. Veio a saber-se que José Ricardo e Lino Lima eram a mesma pessoa. Ou melhor, José Ricardo era o pseudónimo literário e político de Lino Carvalho Lima, advogado, político e anti-fascista português. Percebe-se assim que a chamada “Explicação” seja como que um “Prefácio” na clandestinidade escrito por Lino Lima no qual nos fala de José Ricardo como se de si não se tratasse. Um exercício conseguido que abre as portas ao que se segue.
Desde logo pelas origens familiares e pelo contexto da época. Em meados do século XIX, a construção de estradas e as ligações ferroviárias foram decisivas no desenvolvimento de uma região. Famalicão era o nó equidistante do Porto, de Braga, de Guimarães, de Santo Tirso e da Póvoa de Varzim. Com as novas vias de comunicação a elas ficou ligada.
Se depois de inaugurada a linha de caminho-de-ferro as carruagens de cavalos começaram a ser postas de parte e se muita coisa mudou, também a rapidez do novo meio de transporte mais económico e eficiente fez com que outras actividades se desenvolvessem e a fisionomia da terra se fosse alterando.
Os empreendedores surgiram. É deliciosa a história dos relógios de parede “A Boa Reguladora” contada no livro, uma aventura de dois amigos, João de São Paulo, relojoeiro no Porto e Lino de Carvalho, relojoeiro em Famalicão, ambos antigos aprendizes na mesma relojoaria do Porto, ao qual se associou o irmão de um deles como financiador do projecto. A história de idas ao estrangeiro para o que hoje se chamaria “espionagem industrial” faria as delícias de um verdadeiro “case-study”. Também a prestigiada Tipografia Minerva de Gaspar Pinto de Sousa foi fundada em Famalicão e felicitada por Teófilo Braga a propósito de um seu livro lá impresso. De tudo isso nos fala este Romanceiro.
José Ricardo, apesar de ter nascido no Porto em 1917, no seio de uma família conservadora e católica, da média burguesia pelo lado da mãe e de pequenos proprietários rurais por parte do pai, guarda as melhores recordações de Famalicão, para onde foi viver ainda novo.
“… A implantação de fábricas como a Boa Reguladora e de oficinas como a Tipografia Minerva, acarretaram o nascimento de um proletariado que, em regra geral, habitava ainda nas aldeias próximas. Os operários viviam em casas de rés-do-chão, feitas de pedra sobre pedra, sem argamassa que as prenda umas às outras, mas que tinham um pequeno quintal à sua volta, onde cultivavam couves, batatas e feijões para o seu sustento. Mantêm assim uma mentalidade de pequenos proprietários, mesmo quando não são donos do terreno que cultivam, como geralmente sucede. Mas não abandonam o sonho de ter uma casa…”.
Como se vê, um livro assim, supera o rótulo de sectário. A partir daqui é a vida a acontecer. A ida para Coimbra com o impacto da Guerra Civil de Espanha em 1936 marcou-o profundamente. Conviveu com Joaquim Namorado, Armando Castro, Álvaro Feijó, Armando Bacelar, Pinto Loureiro e muitos outros. Aderiu ao PCP em 1941. Em Vila do Conde cruzou-se com gente de ir à praia e de ir ao mar. Esteve preso. Conheceu gente boa e outra nem por isso. A sua vida dava um livro. E a do povo miúdo também.
Breve ensaio sobre prefácios (IV)
