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Livro dos prefácios à Obra de Agustina Bessa-Luís


Reunir num só volume alguns prefácios de livros de uma escritora, podendo não ser uma ideia original, é algo deveras interessante. E se a escritora for Agustina, o interesse redobra e o patamar torna-se ainda mais desafiante. Parti assim para a leitura do “Livro dos Prefácios à Obra de Agustina Bessa-Luís” com um duplo prazer: a de ser a autora que é, e a de poder usufruir de quem a leu com outro olhar, outra profundidade e a prefaciou com outra elevação.

Percorri os prefácios de vários escritores reunidos num só livro que nos convidam à reflexão. Envolvem-nos assim nas várias dimensões da escrita de Agustina. Ao seu olhar cáustico e inteligente e à sua ironia e mística distância.

A introdução é de Mónica Baldaque e, como referi, os prefácios são de vários autores: Gonçalo M. Tavares, João Bénard da Costa, Rui Ramos, António M Feijó, João Miguel Fernandes Jorge, José Tolentino de Mendonça, António Barreto, Hélia Correia, Bruno Vieira Amaral, António Preto, Pedro Mexia, Jorge Cunha, António Lobo Antunes, Bernardo Pinto de Almeida, Mário Cláudio e António Mega Ferreira

Num texto necessariamente curto, não irei alongar-me. Gostei mais de uns do que de outros, o que é natural. Quer pela forma como o prefácio é escrito, quer pelo livro prefaciado, nem todos me tocaram da mesma forma.

O primeiro, de Gonçalo M. Tavares, que prefacia “A Sibila”, é francamente bom. Ali se encontra Agustina a inscrever a dúvida nos mais inatacáveis dos sentimentos, “…Agustina observa tudo. Não as ama, tem compaixão pelas suas personagens tão humanas”. É alguém “das frases sábias… frases-ilha”, pequenas parábolas que pairam ao longo da sua obra. “Se alguém a ofendesse muito, perdoava, retribuía ou esquecia? E Quina responde: Perdoava a uma criança, retribuía a uma mulher; tratando-se de homem, esquecia”.

É curioso também o texto mais intimista de João Bénard da Costa a propósito de “Os Incuráveis”: “…Terei estado com Agustina umas 40 vezes, mas se sempre a li de perto, sempre a vi de longe…”. Já Hélia Correia que prefacia Fanny-Owen referindo que “… Camilo escreve para se defender quando o que faz de modo inimitável é escrever para atacar…”, não deixa referir as contradições entre Agustina e Camilo, apesar da admiração confessa que Agustina por ele nutria. Sabe-se quanto Agustina admirava Camilo apesar das suas fraquezas de carácter, “…quando o coração me falha neste dialecto de escrever livros, volto-me para Camilo, que é sempre rei em terra de Ciclopes…”.

O texto de Pedro Mexia sobre “Os Meninos de Ouro” vai muito para além de um mero prefácio e é revelador de quem conhece a obra, o meio e o mundo.

Já para José Tolentino de Mendonça, Agustina sabe que há duas percepções afirmadas quanto a “Santo António”: a maioritária, que reduz António a “santo fácil e caseiro”, mais para ser festejado do que para ser compreendido; e a outra, marginal, ligada ao estudo da espiritualidade franciscana. No Livro XI das Confissões, Santo Agostinho argumenta que os tempos são três: “o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes, o presente das coisas futuras”. Para Tolentino de Mendonça, “Santo António” de Agustina é assim, uma “biografia conduzida pela meditação”.

Para António Lobo Antunes “… sai-se dos romances como de um pesadelo implacável, irónico, terno, violento, doce, obscuro e evidente. Ou seja estivemos a ler uma escritora do tamanho de George Eliot ou Jane Austen. E podemos dar graças a Deus de o idioma ser o nosso… Uma grande Escritora”.

Interessantes e bem escritos também os prefácios de Bernardo Pinto de Almeida e António Barreto, particularmente o de “As Pessoas Felizes”. Agustina não diz o que é a felicidade. Mas descreve pessoas felizes. Ou que receiam deixar de o ser.

Breve ensaio sobre prefácios (V)

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