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Autor: admin

  • A morte e também o resto…

    A morte e também o resto…

    Não fora o Diabo e seria suposto estar a festejar-te. Não sei se por Seide se na Samardã, ou mesmo na ralação da Cadeia, mais perdição que Relação por entre pilantras, sinetas ou ferrolhos. Deixaria até que ajeitasses o monóculo cofiando o bigode, posando para a foto da praxe de sorriso maroto e caneta afiada.
    Não fora o Diabo, entretinha-me pelo Minho das tuas novelas, perdia-me nas noites das tuas insónias, escondia-me nas trevas das tuas angústias. Talvez tomasse a liteira por algumas horas, balouçando nos fraguedos daquele Marão, bisbilhotando amores que por lá descobriste. Da Teresa, da freira, de tantas. Não fora o Diabo e talvez mergulhasse na utopia com que embrulhavas casórios, uma dúzia, logo doze, de todos os gostos. E felizes. Assim o escrevias. Não fora o Diabo e esperaria por ti. Seria bom ouvir-te. Mesmo que a rabujares por falta de amores. Mesmo que a divagares, cultivando o talento. Mesmo que prosando até à penumbra.
    Mas veio o Diabo, Camilo. E agora não posso. Ficará para o dia em que a tempestade passar. O tempo é agora de duros marinheiros, mãos calejadas e olhos vidrados nas ondas revoltas. O tempo é um sopro. E o vento agora não sopra a favor. Desculpa Camilo se não te festejo como devia e tu merecias. Mas há a morte ali à espreita e também o resto. Há gente a lutar pela vida de tantos e também o resto. Há um tempo para tudo e também o resto… Sabes Camilo, não fora o Diabo e esperaria por ti. Até que o teu anjo voltasse a cair.
    (escrito há tempos, em 16/3/2020 e hoje recuperado)
    adelino cp
    19.Out.26
  • Escritos vadios

    Escritos vadios

    O meu verdadeiro método de estudar foi outro. Daí estes meus escritos vadios que me vão acompanhando quase dia a dia. Tenho pena de nunca ter tido aulas de literatura clássica. Se há coisas que faria hoje e que não fiz naquele tempo, essa era uma delas. Agora, nem com o Latim do Zero do Frederico Lourenço lá vou. Dele guardo a tradução da Odisseia da Cotovia, com uma dedicatória a alguém que estimava. E fico-me pela Hespéria, uma pequena Antologia de Cultura Greco-Latina. Folheio outros, invejo quem passou uma parte da vida a ler, estudar, sublinhar, ensinar, partilhar, enfim, a viver mergulhado num mundo que não é o meu. Neste mundo dos outros vamos aprendendo que aquilo que sabemos é infinitamente pouco quando comparado com o saber de alguns. Que nunca se mostraram. Que poucos conheciam. A não ser aqueles para quem a sua vida fazia sentido. E que viviam num tempo, noutro tempo, onde o tempo se contava batendo o pé ao ritmo a que se ia lendo. Em voz alta. Para que os deuses ouvissem. E os homens respeitassem.

    adelino cp
    20.Out.26
  • Antologia da Poesia Feminina Portuguesa

    Antologia da Poesia Feminina Portuguesa

    Antologia da Poesia Feminina Portuguesa
    Organização e Prefácio de António Salvado

    Penso que foi o poeta Hugo Santos quem me falou pela primeira vez de António Salvado. Ele ou o José Ribeiro da Ulmeiro, nascido perto de Ourém, figura de Benfica e de toda a Lisboa, e de quem vos voltarei a falar um dia.

    Todos navegavam pelas mesmas águas de uma certa cultura literária, com origens bem diferentes. Hugo Santos, alentejano de Campo Maior e torrejano tardio, viu o seu livro “O Aprendiz de Ventos” ser publicado numa edição conjunta da Vega e da Ulmeiro, ainda no final do século passado. Já António Salvado, poeta, ensaísta e senhor de uma vasta obra bibliográfica, nasceu, viveu e morreu em Castelo Branco, longe dos grandes centros, fazendo da sua Beira Baixa o núcleo central por onde gravitava, viajando no tempo.
    A belíssima e invulgar edição da “Antologia da Poesia Feminina Portuguesa” de que vos falo tem uma poética capa de Ribeiro Farinha, onde tudo parece condizer como se de poesia se tratasse. É também ela um sinal de como se podiam editar livros com sensibilidade estética, assim houvesse engenho e arte para o fazer. Disso, e de muito mais, sabia o Jornal do Fundão (JF) quando, ao que se sabe, em 1972 deu ao prelo esta edição, afectivamente recebida pelos leitores.
    Logo no início do Prefácio, António Salvado não esconde ao que vem: “Ao longo das páginas seguintes, preenchidas pelos poemas de algumas dezenas de autoras, se poderá definir, esclarecer, aclarar, uma realidade sensível mas tantas vezes embaciada, que nos vem de um passado longínquo: a existência de uma significativa poesia feita por mulheres (…). Relegadas quantas vezes para um plano menos evidenciado ou, até, inferior, muitas das autoras na presente antologia apresentadas, estudadas e devidamente exemplificadas, oferecem, sem qualquer dúvida, alto interesse que o simples cotejo com citadíssimos poetas dos mesmos períodos claramente mostrará…”.
    Pelo que nos diz, nos três cancioneiros arcaicos que reúnem as composições dos poetas trovadorescos (Cancioneiro da Ajuda, da Vaticana e da Biblioteca Nacional) não existe qualquer referência a nomes de poetisas, embora se saiba que a influência da mulher no trovadorismo português se encontra evidenciada. Só mais tarde, no “Cancioneiro Geral de Garcia de Resende”, colectânea que colige vasta produção poética do século XV, surge pela primeira vez a mulher firmando o nome nos seus versos (Filipa d’Almada, ou Joana da Gama, como exemplos). Muito tempo depois, em “Gente D’Algo”, também o Conde de Sabugosa referia que “… Entre senhoras da Corte, havia muitas que rimavam com chiste, que sabiam manejar a ironia, e arremessar com graça dardos de satírica malícia…”.
    António Salvado faz do prefácio uma breve, mas elucidativa, síntese da presença feminina nas nossas letras desde o período inicial, do humanismo ao renascimento, passando pelo iluminismo do século XVIII, época em que o “estrangeirado” Luís António Verney reage com o seu “Verdadeiro Método de Estudar” ao que então era comum, “…reconhecendo como necessidade a cultura da mulher…”, estendendo-se até ao século XX com autoras contemporâneas.
    Baseada nalgumas fontes que refere, esta é a Antologia que o Autor entendeu organizar com os meios possíveis e disponíveis. Nela se atravessam séculos e nomes como os de Joana da Gama, Soror Violante do Céu ou Marquesa de Alorna que assim convivem com os de Branca de Gonta Colaço, Irene Lisboa, Florbela Espanca ou Virgínia Vitorino. Das mais recentes até então, Sophia de Mellho Breyner, Natércia Freire, Natália Correia, Ana Hatherly, Maria Teresa Horta, entre outras, não foram esquecidas. Com a consciência de que se fala apenas de algumas das vozes que já tinham voz. Fica a pergunta: quantas, tantas, nunca terão passado do anonimato?
  • De Profundis, Valsa Lenta, de José Cardoso Pires

    De Profundis, Valsa Lenta, de José Cardoso Pires

    Prefácio de João Lobo Antunes

    Reli esta “Carta a um Amigo-Novo” que me lembrou uma carta a um velho amigo que ficará para sempre por escrever. Infelizmente foi tudo tão diferente que devo ao tempo e às circunstâncias o ter-me lembrado dela, da carta à laia de prefácio. Era um domingo, como hoje, e assistia ao Memorial à memória de alguém que o merecia como poucos.

    Chegado a casa, peguei no livro, neste livro de que vos falo. Reli-o num sorvo, bem como ao prefácio. Voltei a ler tudo aquilo que se resume a pouco menos de 70 páginas, mas que nos fala de muito mais que muitas vidas. A de alguém que esteve para ir e por cá ficou, a do “outro que esteve por cá enquanto esse alguém por cá não esteve” e a de um terceiro, amigo de ambos, que nos escreve de uma forma como só ele o poderia ter feito. Escreveram ambos, aliás. Com a sabedoria dos eleitos, que isto de estar do lado de lá tem que se lhe diga.

    Vamos por partes. José Cardoso Pires tinha então 69 anos quando sofreu o AVC, curiosamente tantos quantas as páginas deste livro. Era então um escritor reconhecido e renomado, já havia escrito quase toda a sua obra, já pouco mais teria para nos contar. Passada “… a brancura da paisagem…” resolveu partilhar o que (não) viveu, tendo em João Lobo Antunes alguém que cedo o percebeu, porque tal como em Mondrian, “…são o traço e a cor e as relações entre eles que põem em jogo o registo sensual e intelectual da totalidade da vida interior…”.

    Lobo Antunes, vinte anos mais novo, que havia regressado a Portugal há menos de dez anos após um período de permanência nos EUA, testemunhou o que viu e acompanhou, naquela “… convicção arreigada da alma lusitana que a interferência de médico graúdo apura o tratamento, apressa a cura, empresta enfim ao doente estatuto de maior fidalguia…”. Sendo um homem da ciência era também alguém com um espírito renascentista.

    Prefaciou o livro. Num pedaço de prosa eivado de conhecimento e de sensibilidade estética, gentil na forma e na essência, tratando de um tema que incomoda, faz de “Carta a um Amigo-Novo” um texto doce num momento amargo.

    Ao fazê-lo, assumiu então uma abordagem inteligente sobre um assunto que sabia ser sensível, evitando uma dissertação científica. Não seria esse o seu propósito. Resistiu à tentação de dissertar sobre a relação entre a doença e a criação artística, embalando-nos num texto entre Godot e Mozart, “… e a música de cena era canção de esperança (…) a transição da escuridão para a luz, do mundo subterrâneo para a superfície…”.

    Conseguir conciliar assim num pequeno-grande livro, sem artifícios, dois dos nomes maiores nos seus ‘métiers’ é algo fora do comum. Cumpriram com excelência o seu caminho. Vivem connosco para a posteridade.

    Adelino Pires
    30.Agosto.26
    #Quase escrita…

    Breve ensaio sobre prefácios (II)
  • O Destino português de Sam (duas ou três palavras…)

    O Destino português de Sam (duas ou três palavras…)

    Li, já há algum tempo e com alguma expectativa, O Destino português de Sam, o último livro de Evelina Gaspar. Desde logo, pela autora. A sua primeira obra, Na Massa do Sangue, havia sido premiado (1º Prémio – Médio Tejo). Foi uma revelação. Pela qualidade da escrita de um primeiro livro, pela ousadia, pelo inesperado. No segundo romance, Os Dentes do Tejo, edição da Guerra e Paz, Evelina voltou a ser premiada (Lyons de Portugal). A confirmação de que o anterior não fora um acaso.Ao ler este seu terceiro livro confesso que senti, assim como que um misto de sensações. Talvez porque a expectativa fosse elevada. Por mais paradoxal que pareça, agradou-me desde logo a belíssima capa (um auto-retrato de Sam) e o facto de o livro ter menos de duzentas páginas. Nos tempos que correm, só um grande, grande livro, me prende mais do que isso. Depois, ao longo da leitura, fui-me apercebendo da aventura onde Evelina tinha mergulhado. Ao pegar na mística e desconcertante figura de Sam Abercromby, a autora encontrou o fio de uma longa meada, uma história incrível e cinematográfica, ao nível do que os melhores argumentistas poderiam esperar.Penso mesmo que a própria Evelina foi surpreendida por ambos. Talvez atropelada por ambos. Pelas sete vidas da personagem e pelo fascínio da sua história. Recompôs-se. É uma autora que já demonstrou saber escrever bem, tendo ali, à sua frente, uma personagem incrível de dimensão ofuscante, uma história deste mundo e do outro, merecendo uma narrativa e uma qualidade literária ao nível da personagem e da sua história de vida.

    Não sei se o livro poderia ser mais do que foi. Conseguir tanto em duas centenas de páginas não está ao alcance de qualquer um. E Evelina fê-lo. É obra! Evelina Gaspar já demonstrou ter inegáveis qualidades literárias e é alguém com sensibilidade para beber e passar ao papel tudo aquilo que pensa fazer sentido. Desta vez, tenta que o ritmo e o embalo não lhe fujam. Acredito não ter sido fácil, não porque o não conseguisse, mas porque a dimensão da personagem, o enredo da sua história e a penumbra que separa a ficção da realidade, por vezes se sobrepõe à cadência da escrita.
    No final foi essa a sensação com que fiquei. Um enorme desafio para duas grandes aventuras. A da escritora que ousa. E a de um biografado absolutamente invulgar.adelino p

  • O Alentejo nunca saiu de mim…

    O Alentejo nunca saiu de mim…

    E lá ia ela, como fazia todos os dias, subindo a rua empedrada, amparada na fé e na bengala. Tinha descido os degraus de pedra daquela casa (bela casa), deixado os recados à Joaquina, pequena e leal Joaquina, o guardanapo em cima do jarro de água que lhe almofadava a sesta depois do almoço. E depois, subia direito à Sé, rezava direito a Deus e olhava direito a mim. E eu, que não tinha bengala, nem fé, nem jarro para dormitar, olhava para ela, para a avó Aurora e gostava daquela casa, daquela rua e daquela igreja grande onde, no adro, marquei os primeiros golos da minha vida…

    …de um lado, o Bispo, do outro, os homens de amianto. Dizia-se que eram os mais prontos quando chamados. Estou a vê-los entre a paz do senhor e o esvoaçar dos pombos, confusos, eles, os homens, e os pombos em sobressalto pela sirene da Sé até à serra. E o bispo, paredes meias com aquelas vinte e oito janelas e pilastras, rodando os polegares, desfiando o latinório, baixinho, pianinho, apagando o fogo de outras almas, onde, mais tarde, os homens regressariam já exaustos. E a Sé voltaria a ter os seus pombos. E os pombos as suas vinte e oito janelas. E o Bispo ali continuaria na sua sempre eterna e divinal inspiração, paredes meias com o cheiro e o fumo da terra queimada…

  • Da Lúcia e da Ulmeiro

    Da Lúcia e da Ulmeiro

    Lembro-me do dia (há tantos anos), em que trouxe este Eça da Ulmeiro. Aquele espaço místico onde aprendi que os livros não servem para estar arrumados. Nem que as pessoas só entram nos alfarrabistas para os comprar. Naquele dia, finalmente, a Lúcia olhou para o Zé Ribeiro e disse que sim. Fez o preço e não discuti. Desde então há um pedaço da Ulmeiro comigo aqui, em Torres Novas. Que não tem preço. A Lúcia ‘partiu’ deixando o Zé e os livros por arrumar. Ou talvez não. Afinal, foi sempre assim que se entenderam, naquela desarrumação perfeita, qual puzzle de afectos onde não faltava o gato, o pó e tudo.