Entregas em 48h · Para Portugal

Categoria: Escritos vadios

  • A morte e também o resto…

    A morte e também o resto…

    Não fora o Diabo e seria suposto estar a festejar-te. Não sei se por Seide se na Samardã, ou mesmo na ralação da Cadeia, mais perdição que Relação por entre pilantras, sinetas ou ferrolhos. Deixaria até que ajeitasses o monóculo cofiando o bigode, posando para a foto da praxe de sorriso maroto e caneta afiada.
    Não fora o Diabo, entretinha-me pelo Minho das tuas novelas, perdia-me nas noites das tuas insónias, escondia-me nas trevas das tuas angústias. Talvez tomasse a liteira por algumas horas, balouçando nos fraguedos daquele Marão, bisbilhotando amores que por lá descobriste. Da Teresa, da freira, de tantas. Não fora o Diabo e talvez mergulhasse na utopia com que embrulhavas casórios, uma dúzia, logo doze, de todos os gostos. E felizes. Assim o escrevias. Não fora o Diabo e esperaria por ti. Seria bom ouvir-te. Mesmo que a rabujares por falta de amores. Mesmo que a divagares, cultivando o talento. Mesmo que prosando até à penumbra.
    Mas veio o Diabo, Camilo. E agora não posso. Ficará para o dia em que a tempestade passar. O tempo é agora de duros marinheiros, mãos calejadas e olhos vidrados nas ondas revoltas. O tempo é um sopro. E o vento agora não sopra a favor. Desculpa Camilo se não te festejo como devia e tu merecias. Mas há a morte ali à espreita e também o resto. Há gente a lutar pela vida de tantos e também o resto. Há um tempo para tudo e também o resto… Sabes Camilo, não fora o Diabo e esperaria por ti. Até que o teu anjo voltasse a cair.
    (escrito há tempos, em 16/3/2020 e hoje recuperado)
    adelino cp
    19.Out.26
  • Escritos vadios

    Escritos vadios

    O meu verdadeiro método de estudar foi outro. Daí estes meus escritos vadios que me vão acompanhando quase dia a dia. Tenho pena de nunca ter tido aulas de literatura clássica. Se há coisas que faria hoje e que não fiz naquele tempo, essa era uma delas. Agora, nem com o Latim do Zero do Frederico Lourenço lá vou. Dele guardo a tradução da Odisseia da Cotovia, com uma dedicatória a alguém que estimava. E fico-me pela Hespéria, uma pequena Antologia de Cultura Greco-Latina. Folheio outros, invejo quem passou uma parte da vida a ler, estudar, sublinhar, ensinar, partilhar, enfim, a viver mergulhado num mundo que não é o meu. Neste mundo dos outros vamos aprendendo que aquilo que sabemos é infinitamente pouco quando comparado com o saber de alguns. Que nunca se mostraram. Que poucos conheciam. A não ser aqueles para quem a sua vida fazia sentido. E que viviam num tempo, noutro tempo, onde o tempo se contava batendo o pé ao ritmo a que se ia lendo. Em voz alta. Para que os deuses ouvissem. E os homens respeitassem.

    adelino cp
    20.Out.26
  • O Destino português de Sam (duas ou três palavras…)

    O Destino português de Sam (duas ou três palavras…)

    Li, já há algum tempo e com alguma expectativa, O Destino português de Sam, o último livro de Evelina Gaspar. Desde logo, pela autora. A sua primeira obra, Na Massa do Sangue, havia sido premiado (1º Prémio – Médio Tejo). Foi uma revelação. Pela qualidade da escrita de um primeiro livro, pela ousadia, pelo inesperado. No segundo romance, Os Dentes do Tejo, edição da Guerra e Paz, Evelina voltou a ser premiada (Lyons de Portugal). A confirmação de que o anterior não fora um acaso.Ao ler este seu terceiro livro confesso que senti, assim como que um misto de sensações. Talvez porque a expectativa fosse elevada. Por mais paradoxal que pareça, agradou-me desde logo a belíssima capa (um auto-retrato de Sam) e o facto de o livro ter menos de duzentas páginas. Nos tempos que correm, só um grande, grande livro, me prende mais do que isso. Depois, ao longo da leitura, fui-me apercebendo da aventura onde Evelina tinha mergulhado. Ao pegar na mística e desconcertante figura de Sam Abercromby, a autora encontrou o fio de uma longa meada, uma história incrível e cinematográfica, ao nível do que os melhores argumentistas poderiam esperar.Penso mesmo que a própria Evelina foi surpreendida por ambos. Talvez atropelada por ambos. Pelas sete vidas da personagem e pelo fascínio da sua história. Recompôs-se. É uma autora que já demonstrou saber escrever bem, tendo ali, à sua frente, uma personagem incrível de dimensão ofuscante, uma história deste mundo e do outro, merecendo uma narrativa e uma qualidade literária ao nível da personagem e da sua história de vida.

    Não sei se o livro poderia ser mais do que foi. Conseguir tanto em duas centenas de páginas não está ao alcance de qualquer um. E Evelina fê-lo. É obra! Evelina Gaspar já demonstrou ter inegáveis qualidades literárias e é alguém com sensibilidade para beber e passar ao papel tudo aquilo que pensa fazer sentido. Desta vez, tenta que o ritmo e o embalo não lhe fujam. Acredito não ter sido fácil, não porque o não conseguisse, mas porque a dimensão da personagem, o enredo da sua história e a penumbra que separa a ficção da realidade, por vezes se sobrepõe à cadência da escrita.
    No final foi essa a sensação com que fiquei. Um enorme desafio para duas grandes aventuras. A da escritora que ousa. E a de um biografado absolutamente invulgar.adelino p

  • O Alentejo nunca saiu de mim…

    O Alentejo nunca saiu de mim…

    E lá ia ela, como fazia todos os dias, subindo a rua empedrada, amparada na fé e na bengala. Tinha descido os degraus de pedra daquela casa (bela casa), deixado os recados à Joaquina, pequena e leal Joaquina, o guardanapo em cima do jarro de água que lhe almofadava a sesta depois do almoço. E depois, subia direito à Sé, rezava direito a Deus e olhava direito a mim. E eu, que não tinha bengala, nem fé, nem jarro para dormitar, olhava para ela, para a avó Aurora e gostava daquela casa, daquela rua e daquela igreja grande onde, no adro, marquei os primeiros golos da minha vida…

    …de um lado, o Bispo, do outro, os homens de amianto. Dizia-se que eram os mais prontos quando chamados. Estou a vê-los entre a paz do senhor e o esvoaçar dos pombos, confusos, eles, os homens, e os pombos em sobressalto pela sirene da Sé até à serra. E o bispo, paredes meias com aquelas vinte e oito janelas e pilastras, rodando os polegares, desfiando o latinório, baixinho, pianinho, apagando o fogo de outras almas, onde, mais tarde, os homens regressariam já exaustos. E a Sé voltaria a ter os seus pombos. E os pombos as suas vinte e oito janelas. E o Bispo ali continuaria na sua sempre eterna e divinal inspiração, paredes meias com o cheiro e o fumo da terra queimada…

  • Da Lúcia e da Ulmeiro

    Da Lúcia e da Ulmeiro

    Lembro-me do dia (há tantos anos), em que trouxe este Eça da Ulmeiro. Aquele espaço místico onde aprendi que os livros não servem para estar arrumados. Nem que as pessoas só entram nos alfarrabistas para os comprar. Naquele dia, finalmente, a Lúcia olhou para o Zé Ribeiro e disse que sim. Fez o preço e não discuti. Desde então há um pedaço da Ulmeiro comigo aqui, em Torres Novas. Que não tem preço. A Lúcia ‘partiu’ deixando o Zé e os livros por arrumar. Ou talvez não. Afinal, foi sempre assim que se entenderam, naquela desarrumação perfeita, qual puzzle de afectos onde não faltava o gato, o pó e tudo.